Mas podem chamar de Macumba !
Textos de Umbanda
Pontos cantados de Umbanda
sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
domingo, 22 de agosto de 2004
A Umbanda Mística
A Umbanda Mística tem por base a religião e a fé. Diz o místico que, quando todos os recursos materiais se esgotarem, restará a fé, que, pela crença e devoção em Deus, seus Santos e mensageiros, conseguem o milagre, que a medicina e a ciência não conseguem explicar.
Em outras palavras: quando toda a sabedoria humana e todos os remédios falharem, a fé faz o milagre.Jesus era místico, porque curava pela fé.
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Ele disse: “Se tiverdes fé fareis as obras que eu faço e outras muito maiores”.
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Diz ainda o místico que, para se fazer milagres, é preciso estar fora das condições humanas normais, pela fé e o amor a Deus e seus mensageiros, os Santos.
O místico crê que para Deus tudo é possível e que os milagres são provas que Deus nos dá para provar que nada sabemos e nada somos em sua divina presença. Por isso o místico usa muitas orações para todas as coisas materiais e espirituais, em forma de rezas e benzeções.
O Sacramento do Batizado
O batizado, como já referi, foi introduzido na Umbanda Mística através do batizado de emergência, que a Igreja Católica autorizou o Beato-Rezador a fazer. Depois, foi modificado o seu ritual, com o aparecimento dos rezadores e adesão ao espiritismo.
Foi a época em que começaram a baixar os Espíritos-Guias de Caboclos (as), Pretos (as) Velhos (as) e crianças; mas, pela fé, os adeptos começaram a optar para que os Espíritos-Guias fizessem o batizado e, mais tarde, que fossem os padrinhos espirituais. Nesta época, já se fazia o banho de descarrego, para afastar os maus espíritos e sofredores que eram chamados de quiumbas. Foi então que Guias protetores dos adeptos começaram a usar folhas e ervas de cheiro forte, de que os quiumbas não gostavam; com isto, estes se afastavam de suas vitimas.
Daí a conveniência de usar estas folhas para fazer o batizado – arruda, guine e alecrim-de-cheiro -, usadas também para as defumações. Com o bom resultado, o cruzamento passou a preceder o batizado, dando a este uma maior força espiritual contra o coisa-ruim e os quiumbas (espíritos sofredores, perturbadores das pessoas), tornando o batizado mais forte e eficaz. Começou-se também a batizar imagens de Santos da Igreja Católica, que eram os patronos dos terreiros da Umbanda Mística. Com a influencia negra, cada Santo Católico passou a ser filho de um Orixá.
Assim, cada adepto passou a ter seu Santo Católico como padroeiro (pai-de-cabeça), adquiria a imagem que o representava, e a entronizava em sua casa. Para estas imagens de Santos-Orixás, fazia-se também o batizado, que dava aos adeptos mais força espiritual, afastava os quiumbas e o coisa-ruim das suas casas e trazia-lhes a benção, a paz e a felicidade almejadas. E os adeptos acendiam velas e rezavam diariamente em suas casas.
Notem: todo batizado é feito em dia de festa de Santo da Igreja Católica, e com comes e bebes.
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Entre os dias mais usados, estão:
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O dia 6 de janeiro dia dos Reis Magos – dia da Linha do Oriente, Linha cor-de-rosa, Linha das crianças-santas.
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O dia 20 de janeiro dia de São Sebastião – dia de Oxossi, dia da Linha dos Caboclos e índios.
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O dia 25 de janeiro dia do Apóstolo São Paulo de Tarso – dia da Linha dos médiuns e videntes, dia da linha dos convertidos que eram profanos, entre eles, são Marcos, são Cipriano, São Mâncio, e outros.
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O dia 19 de março dia de São Jose – dia de Xangô-Aganju, dia da Linha dos Santos casados, dia dos padrinhos (diz-se que São Jose foi pai adotivo de Jesus, e que foi padrinho também; por isso ele é o padrinho de todos os umbandistas, juntos com Nossa Senhora da Penha, que é a madrinha).
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O dia 23 de abril dia de São Jorge – dia de Ogum, dia da linha dos Santos que protegem, amparam e guiam os filhos de Umbanda, entre eles, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora do Bom Parto, Nossa Senhora do Carmo, e outros.
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O dia 29 de abril dia de Santa Terezinha do menino Jesus – dia da Linha das Santas Virgens, dia da Linha das sereias.
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O dia 13 de maio dia da libertação (abolição) dos negros da escravidão – dia da Linha africana, dia da Linha dos Pretos Velhos.
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O dia 13 de junho dia de Santo Antonio de Lisboa (Santo casamenteiro) – dia de Ogum General (dizem que ele abandonou a farda e foi ser padre).
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O dia 24 de junho dia de São João Batista – dia de Xangô-Caô, dia da Linha dos Santos Mártires, que morreram pela fé, queimados vivos, esquartejados vivos, degolados (dizem que São João Batista foi degolado, sua cabeça posta em uma bandeja e ofertada à rainha).
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O dia 29 de junho dia de São Pedro – dia de Xangô-Agodô, dia da Linha das parteiras, dia da Linha dos chaveiros.
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O dia 26 de julho dia de Santa Ana, mãe de Nossa Senhora e esposa de São Joaquim – dia de Nanã Buruquê, dia da Linha das vovós.
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O dia 15 de agosto dia de São Benedito – dia de Oxossi-Mata-Lombô, dia da Linha dos Caboclos africanos.
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O dia 16 de agosto dia de São Roque – dia de Abaluaê, dia da Linha dos curandeiros.
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O dia 27 de setembro dia de São Cosme e São Damião – dia de Ibêji, dia da Linha das crianças.
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O dia 29 de setembro dia de São Miguel Arcanjo (Anjo) – dia da Linha de todos os Anjos da guarda, dia de desmanchar pacto com o diabo.
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O dia 30 de setembro dia de São Jerônimo – dia de Xangô-de-Alafim, dia da Linha da justiça (“quem deve, paga”).
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O dia 1º de novembro dia de todos os Santos – dia de recolhimento e prece.
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O dia 2 de novembro dia dos finados (mortos) – dia da Linha das almas.
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O dia 25 de novembro dia de Santa Catarina – dia de Iansã menina, dia da Linha das onze mil virgens.
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O dia 4 de dezembro dia de Santa Bárbara – dia de Iansã, dia da linha das Santas Guerreiras.
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O dia 8 de dezembro dia de Nossa Senhora da Conceição – dia de Iemanjá e Oxum, dia da Linha das iaras e mães d’água.
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O dia 25 de dezembro o dia do Natal, dia do menino Jesus – dia de Oxalá, dia da missa do galo.
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O dia 31 de dezembro o ultimo dia do ano – dia de se romper o que está preso, dia de Iemanjá, dia de se fazer pedidos para casamento.
O Sacramento do Cruzamento
O cruzamento foi o primeiro sacramento que o Beato-Rezador instituiu, quando começaram a aparecer os primeiros rezadores da Umbanda Mística.
Estes adeptos místicos, pelas suas concentrações e exteriorizações, começaram a receber incorporações de espíritos sofredores e mesmo de Espíritos-Guias, a que davam o nome de Caboclos ou Pretos Velhos. Quando um adepto ou não-adepto era possuído pelo sofredor ou coisa-ruim, Exu ou zombeteiro, o Beato-Rezador o benzia, aspergindo em cruz a água benta que se adquiria na igreja católica; o sofredor ou coisa-ruim se afastava, e a pessoa tomava o conhecimento de sua personalidade.
Com a infiltração do negro, do mestiço e do índio como adeptos (médiuns), passou-se a fazer sete cruzes com a água benta e a usar folhas de guine, de arruda e de alecrim-de-cheiro, que era molhadas na água benta, e com, isso o resultado era melhor.
Mas o negro, conhecedor da pemba, originada da África, começou a encomendar aos tripulantes dos navios mercadores que faziam a rota pela África, a dita pemba, com a qual fazia as sete cruzes nos possessos de espíritos sofredores e do coisa-ruim. O resultado foi melhor, mas não deixaram de cruzar com a água benta e as três ervas sagradas – a guine, a arruda e o alecrim. Mas o numero de pessoas e adeptos que caiam possessos diminuiu, e quase se extinguiu.
Com isso, os iniciadores de adeptos passaram a cruzar, instituindo o primeiro sacramento, que não era de origem católica. E toda a pessoa que quisesse ser adepto (a) teria que fazer o sacramento de cruzamento, que foi aperfeiçoado com o tempo.
Já na década de cinqüenta a Umbanda Mística exercia seus sacramentos todos, e o cruzamento se fazia:
Já na década de cinqüenta a Umbanda Mística exercia seus sacramentos todos, e o cruzamento se fazia:
A - Cruzando o possesso com pemba, para afastar o sofredor ou coisa-ruim.
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B - Cruzando os médiuns, para que não recebessem o sofredor e sim o Guia, como o Caboclo, o Preto Velho ou Criança.
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C - Cruzando imagens, objetos e casas, para lhes dar mais força, e para se responder os pedidos sem a interferência dos sofredores e maus espíritos.
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D - O cruzamento que precedia a todos os outros sacramentos: até nas oferendas se cruzava o alguidar (prato ou panela), antes de se depositar a oferenda; o galo ou outros animal era cruzado, antes de ser sacrificado à entidade espiritual. Enfim, tudo era cruzado: guia-colar, cachimbo, coité, punhal, toco (banquinho), bengala, etc.
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E - O Sacramento do cruzamento é uma espécie de “fechamento de corpo”, para que os espíritos inconvenientes ou coisa-ruim não possam mais se apoderar da pessoa, médiuns ou adepto.
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Notem: todo sacramento feito na Umbanda Mística é acompanhado de festas e comes e bebes, o que é de tradição, e, geralmente, quem faz o sacramento do cruzamento é o Guia-Chefe espiritual do terreiro.
Umbanda Kardecista
Na Umbanda Kardecista ou linha branca de Umbanda, os adeptos se limitam a doutrinar espíritos que se encontram perturbando alguém.
Para isto, ocupam o médium como receptáculo do sofredor, para este orientado e guiado no caminho da luz. Os Guia-Caboclos, velhos e crianças se encarregam das consultas, passes, receitas de banhos de ervas etc., e dão conselhos, fazem palestras para os médiuns e para o publico baseados no livro dos médiuns, no livro dos espíritos e outros de origem kardecista.
Mas veneram os Orixás, cultuam altares e imagens de origem católica e fazem grandes reuniões na praia, na mata, na cachoeira e ate em estádios de futebol (para fins políticos).
Em resumo:
Os adeptos da Umbanda Mística crêem e aguardam o milagre;
Os adeptos da Umbanda Esotérica estudam e procuram as forças mágicas para resolverem as questões de ordem material e espiritual;
Os adeptos da Umbanda Kardecista se limitam ao mundo espiritual, fazendo passes e doutrinando espíritos segundo os preceitos de kardec, para ganharem a luz espiritual e melhorarem seu carma em futuras encarnações.
Além disso, há os adeptos que misturam a Umbanda Mística, a Esotérica e a Kardecista.
A Umbanda Esotérica
A Umbanda Esotérica estuda as forças sutis da natureza pelas quais Deus, seus anjos, Orixás, gênios e espíritos se manifestam, criando, cuidando e renovando tudo do reino mineral, vegetal e animal, dos elementos, como fogo, terra, ar e água, e também dos mundos espirituais, das outras dimensões, das virtudes, correntes. As forças da natureza têm suas leis próprias, por exemplo:
A adivinhação pela lei da causa e efeito;
Os castigos pela lei dos contrários ou lei do retorno;
O êxito pela mesma lei (“Quem dá receberá, e quem recebe dará”), e outras.
A Umbanda Esotérica estuda também a astrologia, isto é, forças e emanações dos “astros” (digo “astros” porque não são planetas e nem signos do zodíaco, embora a=ocupem os nomes destes); a parapsicologia, ou seja, fenômenos de ordem material e espiritual; a psicologia, ou estudo do comportamento; a fisiognomonia, para se conhecer o caráter das pessoas e que os estão sentindo, alem da grafologia, quiromancia etc.
A Umbanda Esotérica estuda também a força que cada planta tem para o uso medicinal e espiritual, pela vibração e irradiação, e estuda as religiões (teologia), a simbologia que abrange os pontos riscados, pentáculos, cadeias mágica, talismãs, amuletos, letras, números, desenhos, imagens, flâmulas, cores, símbolos astrológicos, planetários; e tudo que representa uma foca negativa ou positiva, representativa ou indicativa do que precisamos para agir e usufruir, ou ainda nos orientar em uma missão determinada ou trabalho a executar em beneficio de alguém ou de si mesmo, material ou espiritual.
Notem que: a Umbanda Esotérica abrange todas as religiões, seitas e credos, porque tem que estuda-los, enquanto a Umbanda Mística estuda a lei da causa e efeito, por causa da sua fé, crença e amor a Deus, e por aceitar o milagre inexplicável.
Exu - O perfil do Orixá
Exu é a figura mais controvertida dos cultos afro-brasileiros e também a mais conhecida. Há, antes de mais nada, a discussão se Exu é um Orixá ou apenas uma Entidade diferente, que ficaria entre a classificação de Orixá e Ser Humano.
Sem dúvida, ele trafega tanto pelo mundo material (ayé), onde habitam os seres humanos e todas as figuras vivas que conhecemos, como pela região do sobrenatural (orum), onde trafegam Orixás, Entidades afins e as Almas dos mortos (eguns). Esse Orixá (ou Entidade) não deve ser confundido com os eguns, apesar de transitar na mesma Linha das Almas (uma das três linhas independentes) sendo o seu dia a segunda-feira; ficando sob o seu controle e comando, os Kiumbas (espíritos atrasadíssimos na evolução).
Exu é figura de status entre os Orixás, que apesar de ser subordinado ao poder deles, constitui uma figura tão poderosa que freqüentemente desafia as próprias divindades. Sua função e condição de figura-limite entre o astral e a matéria, se revela em suas cores, o negro e o vermelho, sendo esta última a vibração de menor freqüência no espectro do olho humano, abaixo do qual tudo é negro, há ausência de luz. Seus aspectos contraditórios também podem ser analisados sob outro ponto de vista: o negro significa em quase todas as teologias o desconhecido; o vermelho é a cor mais quente, a forte iluminação em oposição à escuridão do negro. Até em suas cores, Exu é o símbolo das grandes contradições, do amplo terreno de atuação.
Os Exus são considerados entidades poderosas, mas nem sempre conscientes dessa força, desconhecendo seus limites e suas conseqüências ao envolver os seres humanos vivos. Assim ao utilizar-se de suas vibrações, um iniciado precisa tomar cuidado para não permitir que Exu, mesmo com o propósito de ajudá-lo, provoque um descontrole energético que possa ser prejudicial ao ser humano.
Sua função mítica é a de mensageiro - é o que leva os pedidos e oferendas do homens aos Orixás, já que o único contato direto entre essas diferentes categorias só acontece no momento da incorporação, quando o corpo do ser humano é tomado pela energia e pela consciência do seu Orixá pessoal (quando a consciência de quem carrega o Orixá desaparece). É Exu quem traduz as linguagens humanas para a das divindades.
Por isso, é imprescindível para a realização de qualquer ritual, porque é o único que efetivamente assegura em uma dimensão (ayé ou orum) o que está acontecendo na outra, abrindo os caminhos para os Orixás se aproximarem dos locais onde estão sendo cultuados. O poder de comunicar e ligar, confere à ele também o oposto; a possibilidade de desligar e comprometer qualquer comunicação. Se possibilita a construção, também permite a destruição.
Esse poder foi traduzido mitologicamente no fato de Exu habitar as encruzilhadas, passagens, os diferentes e vários cruzamentos entre caminhos e rotas, e ser o senhor das porteiras, portas entradas e saídas. Isso não entra em contradição com o fato de Ogum, o Orixá da guerra, ser considerado o senhor dos caminhos. Além da grande afinidade entre as duas figuras míticas (que são irmãos, de acordo com as lendas), Ogum é responsável pelo desbravamento, pelo desmatar e o criar de novos caminhos, pela expansão do reino, enquanto Exu é o senhor da força que percorre esses caminhos.Como, então, essa imagem de menino brincalhão, mesmo que imprudente, se coaduna com a imagem popular que associa Exu ao Diabo? Mesmo em cultos de Umbanda (alguns) Exu é freqüentemente considerado um representante do mal, das forças perigosas e não totalmente recomendáveis.
Qual visao esta correta ?
A rigor, ambas ou nenhuma delas. Exu realmente brinca e se diverte, possibilitando brincadeiras e prazeres aos seres humanos. Também mexe com forças terríveis, provoca acontecimentos dramáticos, causando o mal. Em termos históricos, as culturas africanas que cultuam os Orixás - muito diversificadas, conseqüência evidente de uma sociedade dividida em raças, tribos, muito pouco centralizada para os parâmetros ocidentais - são muito mais antigas que as que conhecemos. Há lendas de Orixás que se explicam como respostas socialmente criativas a acontecimentos perdidos num longínquo passado, como a substituição do matriarcado pelo patriarcado, o surgimento do primeiro conceito de sociedade agrária, em oposição a uma cultura nômade e caçadora.
Assim, como encontrar uma figura que representa o mal numa cultura onde não existe a dicotomia bem-mal? A moralidade ou imoralidade portanto, não está nas figuras dos Orixás, nem principalmente em Exu, mas sim nas interpretações que nós, ocidentais, fazemos a respeito de seus desígnios.
Para a cultura africana, politeísta, onde os deuses brigam entre si, cada um tomando atitudes radicalmente opostas às dos outros, não existe um certo e um errado, mas vários. Cada ser humano é filho de dois Orixás e, para ele, suas atitudes serão as mais corretas, enquanto um filho de outro Orixá deverá manter postura diferente, mas adaptada ao arquétipo de comportamento associado ao seu próprio Orixá. Outra razão de confusão vem do fato de os negros terem chegado ao Brasil na condição de escravos, tratados como subumanos e sem os mínimos direitos.
Nenhuma hipótese havia, portanto, para que Exu e outras figuras míticas do Candomblé e da Umbanda, fossem aceitas como independentes: os negros tinham de ser convertidos ao Deus Único, aos mitos cristãos. Uma divindade africana ao ser capturada pelas explicações católicas, teria no máximo o status de santo, divindade menor, praticamente humana, na teologia cristã.
Exatamente por isso, Exu era a divindade que protegia, na medida do possível, os negros dos repressivos senhores. Era para Exu que pediam desgraças para seus senhores.
Dois outros fatores associam Exu ao Demônio; o fogo - elemento do Diabo e também freqüente nos cultos e oferendas para o mensageiro dos Orixás africanos - e o sexo, território considerado tabu pelos católicos, e o prazer - em geral, as atividades favoritas de Exu. A sensualidade desenfreada costuma ser atribuída à influência de Exu, que significa a paixão pelo gozo, sendo freqüentemente representado em estatuetas, como figura humana sorridente, debochada.
Para completar os tabus que marcavam Exu como uma figura que subvertia o conceito de faça o bem e será recompensado, faça o mal e será punido - já que ele podia fazer qualquer coisa e alterar qualquer resultado - mas um fator fez com que fosse não só usado como o Diabo mas reconhecido como sua própria encarnação por parte dos jesuítas: Exu gosta de sangue. É costume que, em oferendas, o sangue de animais seja o último ingrediente. Como, porém, essa base filosófica africana foi esquecida na prática pelos brasileiros, existe certo temor e preconceito com relação a Exu.
Isso se revela no temor que os babalorixás (sacerdotes que dirigem a Umbanda ou um Candomblé) têm em identificar alguém como filho de Exu, ou seja, como pessoas cuja energia básica é a mesma do mensageiro dos deuses. Reforçam-se assim, os mitos de desgraça que ronda a figura de Exu. A Pomba-gira, figura comum nos cultos de Umbanda e presente em diversos Candomblés, dada a grande intercomunicação entre as duas vertentes, não passa, de um Exu Feminino, onde estão em destaque o senso de humor debochado, a voluptuosidade e sensibilidade desenfreadas, usando cabelos soltos, saias rodadas e vaidosas flores na cabeça.
Sua dança é uma gira frenética, desenfreada, violenta até, com quase nenhum controle - sem compostura, de acordo com a visão ocidental.
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